Disfunção do tendão tibial posterior: a causa mais comum de pé plano no adulto

disfunção do tendão tibial posterior

Você percebeu que seu pé está ficando cada vez mais chato? Sente dor na parte interna do tornozelo que piora ao caminhar? Esses podem ser sinais de disfunção do tendão tibial posterior, a principal causa de pé plano adquirido no adulto. 

Esta condição progressiva afeta principalmente mulheres acima de 40 anos e, quando diagnosticada precocemente, pode ser tratada de forma conservadora com excelentes resultados.

No Instituto Regenmov, vejo frequentemente pacientes que não compreendem por que seus pés estão mudando. A disfunção do tendão tibial posterior é condição que muitos desconhecem, mas que tem impacto significativo na qualidade de vida. 

Felizmente, tratamentos modernos incluindo medicina regenerativa podem interromper a progressão e restaurar a função.

O que é o tendão tibial posterior

O tendão tibial posterior conecta o músculo tibial posterior, localizado na panturrilha, aos ossos da parte interna do pé. Este tendão passa por trás do maléolo medial (o osso proeminente na parte interna do tornozelo) e se insere principalmente no osso navicular.

Suas funções são vitais: sustenta o arco longitudinal medial do pé, inverte o pé (vira para dentro) e auxilia na flexão plantar. Durante a marcha, este tendão trabalha constantemente para estabilizar o pé e manter o arco elevado.

Como ocorre a disfunção

A disfunção do tendão tibial posterior tipicamente se desenvolve gradualmente através de uso excessivo e microtraumas repetitivos. O tendão possui zona de baixa vascularização ao nível do maléolo medial, tornando-o vulnerável a degeneração.

Com o tempo, o processo inflamatório crônico (tendinite) evolui para degeneração (tendinose). Conforme o tendão enfraquece, perde capacidade de sustentar o arco plantar. Isto sobrecarrega os ligamentos da parte interna do pé.

Gradualmente, esses ligamentos se alongam e o arco plantar começa a ceder. O calcanhar assume posição virada para fora e os dedos apontam para fora. Esta é a deformidade característica do pé plano adquirido no adulto.

Fatores de Risco

A disfunção do tendão tibial posterior afeta principalmente mulheres entre 40 e 60 anos. A prevalência estimada nesta população é de 3,3% a 10%, aumentando com a idade.

Obesidade aumenta significativamente a carga sobre o tendão. Pessoas que nasceram com pé plano apresentam maior risco. Diabetes, hipertensão e artrite reumatoide também aumentam o risco. Embora menos comum, trauma direto no tornozelo pode iniciar o processo.

Estágios da disfunção

  • Estágio I: tendinite com dor e inchaço ao longo do tendão. O arco plantar está preservado e o pé permanece flexível.
  • Estágio II: o arco plantar começa a ceder e desenvolve-se deformidade visível. O pé permanece flexível e a deformidade pode ser corrigida manualmente.
  • Estágio III: deformidade rígida estabelecida. O pé não pode mais ser corrigido manualmente. Alterações artríticas aparecem nas articulações.
  • Estágio IV: a deformidade progrediu para envolver o tornozelo, com artrite e deformidade da articulação do tornozelo.

Sintomas importantes

Dor na parte interna do tornozelo e pé é o sintoma mais comum. A dor localiza-se ao longo do trajeto do tendão. Inicialmente é intermitente, piorando com atividades. Progressivamente, torna-se mais constante.

Inchaço visível atrás do maléolo medial surge nos estágios iniciais. O tendão pode parecer espessado ao palpar.

Dificuldade para elevar-se na ponta dos pés com uma perna só é sinal importante. Este teste avalia a função do tendão tibial posterior.

A sensação de que o pé está “desabando” ou “ficando chato” surge conforme o arco plantar cede. Calçados que serviam bem podem começar a apertar devido à alteração da forma do pé.

Diagnóstico preciso

Durante o exame físico, avalio o alinhamento do retropé observando o paciente por trás. No pé plano com disfunção do tendão tibial posterior, vejo mais dedos do lado externo quando olho por trás (sinal do “too many toes”).

O teste de elevação na ponta de um pé é fundamental. Peço que se apoie apenas no pé afetado e tente elevar-se. Se o tendão está funcionante, o calcanhar inverte durante o movimento. Na disfunção, o paciente não consegue elevar-se ou o calcanhar não inverte.

Radiografias em carga mostram o grau de colapso do arco. A ultrassonografia visualiza o tendão, identificando espessamento e áreas de ruptura. A ressonância magnética mostra detalhes do tendão, edema ósseo e alterações nos ligamentos.

Tratamento conservador nos estágios iniciais

Para estágios I e II, o tratamento conservador é a primeira linha, com taxa de sucesso de 60-80%.

Imobilização e repouso

Na fase aguda, órtese tipo bota imobilizadora por 6 a 8 semanas permite que o tendão descanse e a inflamação se resolva. Após este período, transição para tornozeleira estabilizadora durante atividades.

Fisioterapia especializada

O protocolo foca em fortalecimento progressivo dos músculos da panturrilha e pé. Exercícios de inversão do pé contra resistência fortalecem especificamente o tendão tibial posterior. Exercícios proprioceptivos melhoram o controle neuromuscular.

Alongamento da musculatura posterior da perna é importante. Fortalecimento dos músculos intrínsecos do pé com exercícios como agarrar toalha com os dedos também faz parte do protocolo.

Órteses e palmilhas

Palmilhas personalizadas com suporte robusto ao arco medial são fundamentais. Estas órteses redistribuem a carga, aliviando o estresse sobre o tendão. Para casos mais avançados, dispositivos tipo órteses de tornozelo-pé podem ser necessários.

Controle de peso

Redução de peso corporal diminui dramaticamente a carga sobre o tendão tibial posterior. Cada quilograma perdido reduz em aproximadamente 3 quilogramas a força sobre o pé durante a marcha.

Medicina Regenerativa: potencializando a recuperação

No Instituto Regenmov, integramos tecnologias regenerativas ao tratamento conservador.

PRP para o Tendão Tibial Posterior

O PRP tem demonstrado benefícios em tendinopatias crônicas. Infiltro PRP guiado por ultrassom nas áreas de maior degeneração do tendão.

Os fatores de crescimento estimulam síntese de colágeno, melhoram a organização das fibras tendinosas e modulam a inflamação crônica. Pacientes frequentemente relatam melhora progressiva da dor e função ao longo de 8 a 12 semanas.

Laser de alta intensidade

O laser de alta intensidade acelera a cicatrização tendinosa e proporciona analgesia. Aplico ao longo do trajeto do tendão duas a três vezes por semana durante 6 a 8 semanas.

Ondas de choque

A terapia por ondas de choque estimula neovascularização e reorganização das fibras de colágeno. É útil em casos com componente de fibrose ou calcificações.

Protocolo Integrado

  • Fase Aguda (0-8 semanas): imobilização em bota, gelo, laser de alta intensidade. Controle de peso e modificação de atividades.
  • Fase de Transição (8-16 semanas): transição para tornozeleira, início de fisioterapia. Se não houver melhora adequada, infiltração de PRP guiada por ultrassom. Prescrição de palmilhas personalizadas.
  • Fase de Manutenção (16+ semanas): fisioterapia progressiva focando em fortalecimento e propriocepção. Ondas de choque se houver fibrose persistente. Uso contínuo de órteses durante atividades.

Quando a cirurgia é necessária

Se após 6 meses de tratamento conservador adequado não houver melhora, ou se o paciente apresenta estágio III ou IV, cirurgia pode ser indicada.

Para estágio I e início do II, limpeza do tendão e reparo de rupturas parciais podem ser suficientes. Para estágio II avançado, osteotomias de realinhamento do calcanhar combinadas com transferências tendinosas restauram a biomecânica. No estágio III, fusões de articulações estabilizam a deformidade.

A maioria dos pacientes retorna a atividades normais em 3 a 6 meses. Entretanto, a cirurgia em estágios avançados é complexa e os resultados são menos previsíveis que o tratamento conservador em estágios iniciais.

Prevenção

Pessoas com fatores de risco devem adotar medidas preventivas. Mantenha peso corporal saudável. Use calçados com suporte adequado ao arco plantar, evitando sapatos completamente planos. Fortaleça regularmente a musculatura da panturrilha e pé.

Se você tem pé plano, considere uso preventivo de palmilhas com suporte ao arco. Mulheres acima de 40 anos com pé plano devem estar atentas aos primeiros sinais de dor na parte interna do tornozelo.

A importância do diagnóstico precoce

A disfunção do tendão tibial posterior é condição progressiva. Nos estágios iniciais, o tratamento conservador potencializado com medicina regenerativa pode interromper a progressão e restaurar a função. Quando a deformidade se estabelece e se torna rígida, as opções conservadoras são limitadas e a cirurgia torna-se necessária.

Se você percebe que seu pé está mudando de forma, sente dor na parte interna do tornozelo ou tem dificuldade para elevar-se na ponta de um pé, entre em contato e agende uma consulta. O diagnóstico precoce e tratamento adequado fazem toda a diferença no prognóstico.