Você sente dor na parte de trás do calcanhar, especialmente ao caminhar ou subir escadas? A dor piora ao acordar e melhora conforme aquece? Pode ser tendinite de Aquiles, não fascite plantar. Estas duas condições frequentemente são confundidas porque ambas causam dor na região do calcanhar, mas o mecanismo é completamente diferente e o tratamento também.
No Instituto Regenmov, distingo essas condições logo na avaliação inicial. A fascite plantar afeta a fáscia plantar (tecido que fica embaixo do pé).
A tendinite de Aquiles é inflamação do tendão que conecta a panturrilha ao calcanhar. Esta distinção é crítica porque cada uma responde diferentemente aos tratamentos.
O que é Tendinite de Aquiles
O tendão de Aquiles é o tendão mais espesso e mais forte do corpo humano. Ou seja, funciona como corda fibrosa conectando os músculos da panturrilha (gastrocnêmio e sóleo) ao calcanhar. Cada passo, cada salto, cada corrida passa força através deste tendão.
Tendinite de Aquiles é inflamação do tendão ou da bainha que o envolve (paratendinite). O tendão fica espesso, inflamado e doloroso. Diferentemente de uma lesão aguda que causa ruptura completa, a tendinite é processo degenerativo crônico onde o tendão se deteriora progressivamente.
Por que desenvolve Tendinite de Aquiles
Sobrecarga mecânica repetitiva
Corredores de longa distância são população clássica. Ainda, aumentar abruptamente o volume de treino sem período de adaptação sobrecarrega o tendão. O tendão não consegue adaptar-se rápido o suficiente ao novo nível de demanda.
Atividades que envolvem saltos repetitivos (basquete, vôlei) também causam tendinite. Atletas que mudam de tipo de atividade abruptamente frequentemente desenvolvem tendinite no novo esporte.
Não-atletas também sofrem. Mulheres que usam saltos altos cronicamente sobrecarregam o Aquiles. O salto alto mantém o tendão encurtado e sob tensão constante.
Encurtamento muscular
Panturrilhas encurtadas aumentam a tensão no tendão. Por exemplo, pessoas que ficam sentadas longas horas (trabalho de escritório) frequentemente têm panturrilhas muito encurtadas. Quando começam atividade física sem alongamento adequado prévio, o tendão é sobrecarregado.
Idade e degeneração
Acima dos 40 anos, o tendão de Aquiles naturalmente perde elasticidade e tem maior risco de degeneração. A vascularização diminui. O tendão fica mais rígido e menos resiliente.
Alterações biomecânicas
Pé plano ou pronado excessivamente predispõe a tendinite de Aquiles. O desalinhamento durante a marcha cria forças anormais no tendão. A disfunção do tendão tibial posterior é causa comum de pé plano que frequentemente precipita tendinite de Aquiles.
Pé cavo também pode causar tendinite Aquiles, de mecanismo diferente: o tendão fica sob tensão excessiva constante.
Calçados inadequados
Saltos muito altos criam angulação anormal. Sapatos muito flexíveis não oferecem suporte adequado ao tendão durante a marcha. Mudar abruptamente para calçado completamente diferente pode precipitar tendinite.
Sintomas da Tendinite de Aquiles
Dor na parte de trás do calcanhar, tipicamente na inserção do tendão ou alguns centímetros acima, é sintoma principal. A dor é pior no início da atividade (primeiros 5-10 minutos) e frequentemente melhora conforme aquece, para piorar novamente no final do dia.
Acordar com dor ou rigidez no calcanhar é característico. Os primeiros passos da manhã são dolorosos. Inchaço discreto e sensibilidade à palpação direta do tendão são comuns.
Inflamação crônica frequentemente causa espessamento palpável do tendão. Alguns pacientes relatam sensação de “arenação” ou “crepitação” ao mover o tornozelo. Crepitação sugere inflamação significativa da bainha do tendão.
Diagnóstico
O diagnóstico começa com exame clínico. Palpo o tendão procurando por áreas de espessamento, inflamação ou sensibilidade. Realizo testes funcionais que reproduzem a dor durante o movimento.
A ultrassonografia é exame ideal para tendinite de Aquiles. Visualiza o tendão, mostra seu espessamento, identifica áreas de degeneração ou microrrupturas e distingue tendinite de paratendinite. A ressonância magnética oferece maior detalhamento mas tem custo elevado.
Radiografias podem mostrar calcificações na inserção do tendão, indicando inflamação crônica prolongada.
Tratamento conservador
Para a maioria das tendinites de Aquiles, tratamento conservador é suficiente quando implementado precocemente.
Repouso relativo
Modificar ou pausar atividades que causam dor é fundamental. Isto não significa imobilidade completa, mas evitar atividades de impacto. Natação e ciclismo frequentemente são bem tolerados.
Alongamento e fisioterapia
Alongamento agressivo da panturrilha 2-3 vezes ao dia reduz tensão no tendão. Fortalecimento excêntrico específico (alongar o tendão sob carga) é particularmente eficaz. Exercícios de propriocepção melhoram estabilidade do tornozelo.
Terapia manual com mobilização do tornozelo e liberação de pontos de tensão ajuda. Massagem profunda da panturrilha reduz rigidez.
Mudança de calçado
Reduzir altura do salto ou usar salto mais moderado (3-5cm) reduz a tensão no Aquiles. Palmilhas com elevação do calcanhar aliviam o tendão. Evitar andar descalço em superfícies duras.
Gelo e anti-inflamatórios
Aplicação de gelo após atividades reduz inflamação. Anti-inflamatórios em curtos períodos ajudam. Evitar anti-inflamatórios prolongados pois podem interferir na cicatrização do tendão.
Medicina Regenerativa para Tendinite de Aquiles
Quando tratamento conservador por 8-12 semanas não proporciona alívio adequado, tecnologias regenerativas oferecem alternativas muito eficazes.
Ondas de hoque
A terapia por ondas de choque é particularmente eficaz para tendinite de Aquiles crônica. Ondas acústicas estimulam neovascularização e promovem remodelação do tendão degenerado. Aplico ondas diretamente sobre a área inflamada do tendão, tipicamente 3-5 sessões. Estudos demonstram taxa de sucesso de 70-85% em tendinite refratária.
PRP (Plasma Rico em Plaquetas)
Infiltração de PRP guiada por ultrassom no tendão lesionado é abordagem regenerativa poderosa. Os fatores de crescimento liberados pelas plaquetas estimulam cicatrização e reduzem inflamação crônica. Particularmente eficaz quando há degeneração tendínea associada.
Laser de Alta Intensidade
O laser de alta intensidade penetra profundamente nos tecidos, alcançando o tendão inflamado. Proporciona efeitos anti-inflamatórios, analgésicos e bioestimulantes. Útil para controle rápido da dor aguda.
Prevenção
Para atletas, progressão gradual de treino é fundamental. Aumentar volume ou intensidade em máximo 10% por semana. Alongamento de panturrilha antes e depois de treino é essencial.
Manutenção de peso corporal adequado reduz carga no tendão. Fortalecimento consistente da panturrilha previne tendinite. Uso de calçados apropriados faz diferença.
Se você tem predisposição (história familiar, outras lesões tendíneas), educação preventiva é ouro. Não espere dor crônica desenvolver-se.
Sobre o autor: Dr. Raffael Marum é especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo e Medicina Regenerativa. Atende no Instituto Regenmov em Santo André, São Paulo.
